Elizabeth Carneiro

Especialista em Jogo Responsável e Comportamento do Apostador
Elizabeth Carneiro é pesquisadora brasileira na área de saúde mental, com foco em comportamento de risco e dependências comportamentais, especialmente gambling. Atua na interface entre epidemiologia, clínica e políticas públicas, investigando prevalência, progressão do jogo e diferenças de gênero no Brasil. Participou de estudos nacionais que ajudaram a mapear o perfil sociodemográfico dos jogadores e as comorbidades associadas ao jogo problemático. Sua trajetória combina produção científica, adaptação de instrumentos diagnósticos e atendimento clínico, contribuindo para consolidar o gambling como questão de saúde pública no país. Defende regulamentação responsável baseada em evidência científica e estratégias de prevenção estruturadas.

Eu sou Elizabeth Carneiro. Sou pesquisadora na área de saúde mental e, há muitos anos, dedico minha carreira ao estudo do comportamento de risco e das dependências comportamentais, especialmente o gambling no Brasil. Quando comecei a me interessar pelo tema, ele ainda era tratado com certo desconforto acadêmico. O jogo era visto como entretenimento, como problema moral ou como questão policial. Pouco se falava dele como fenômeno de saúde pública.

Minha formação foi construída dentro do campo da psicologia e da epidemiologia psiquiátrica. Sempre me intrigaram comportamentos que envolvem risco e recompensa. Por que algumas pessoas experimentam e seguem adiante, enquanto outras permanecem presas em um ciclo repetitivo? Por que o mesmo estímulo gera trajetórias tão diferentes?

Essas perguntas me levaram à pesquisa quantitativa. Eu queria números, padrões, prevalências. Eu queria entender o fenômeno em escala populacional.

O Brasil e sua relação ambígua com o jogo

Quando comecei a estudar gambling, o Brasil já tinha uma história complexa com o tema. Cassinos haviam sido proibidos décadas atrás, mas o jogo nunca deixou de existir. Ele apenas mudou de forma. Existia nas loterias, no jogo do bicho, nas apostas informais. Depois, com a internet, passou a existir no celular de qualquer pessoa.

Percebi que o crescimento das apostas online criava um novo cenário. O acesso tornou-se contínuo. A fricção diminuiu. A recompensa ficou mais imediata. E eu sabia que, se não houvesse dados confiáveis, o debate público ficaria refém de opiniões.

Foi nesse momento que comecei a participar de estudos epidemiológicos nacionais.

Meus principais estudos científicos

Um dos trabalhos mais importantes da minha trajetória foi o estudo que estimou a prevalência do jogo na população brasileira e analisou suas correlações sociodemográficas. Ele ajudou a criar uma linha de base para o país.

AnoEstudoPeriódicoLink
2010Gambling in Brazil: lifetime prevalences and socio-demographic correlatesPsychiatry ResearchAcessar
2014Gambling onset and progressionPsychiatry ResearchAcessar
2020Gender differences in gambling exposure and at-risk gambling behaviorJournal of Gambling StudiesAcessar

Essas pesquisas mostraram algo fundamental: o gambling não é um comportamento marginal. Ele atravessa classes sociais, níveis educacionais e regiões do país. Ele está presente de maneira difusa.

O que aprendi sobre início e progressão

Uma pergunta que sempre me inquietou foi: quanto tempo leva para que o jogo recreativo se transforme em comportamento problemático?

Nos estudos sobre início e progressão, observei que essa trajetória não é linear. Em alguns indivíduos, especialmente jovens, o intervalo entre a primeira aposta e o desenvolvimento de sinais de risco pode ser curto. Isso muda completamente a lógica da prevenção.

Se a progressão pode ser rápida, a intervenção precisa ser precoce.

Diferenças de gênero: uma virada importante

Durante muito tempo, o jogador problemático foi imaginado como homem adulto. Mas meus dados mostraram nuances importantes.

AspectoHomensMulheres
Idade média de inícioMais precoceMais tardia
Velocidade de progressãoGradualPode ser mais acelerada
Modalidades frequentesApostas esportivasJogos eletrônicos e loterias

Percebi que mulheres podem iniciar o jogo mais tarde, mas desenvolver risco mais rapidamente após o início. Isso exige abordagens terapêuticas diferenciadas.

A clínica como complemento da pesquisa

Se a pesquisa me deu números, a clínica me deu histórias. Eu atendi pessoas que alternavam entre múltiplos aplicativos simultaneamente. Vi jovens que começaram por curiosidade e, em pouco tempo, já estavam endividados.

A clínica me mostrou algo que estatísticas não revelam com facilidade: a vergonha associada ao jogo. Muitos pacientes demoram a procurar ajuda. O sofrimento acontece em silêncio.

Vínculos institucionais e atuação profissional

Ao longo da minha trajetória, estive vinculada a centros dedicados à pesquisa e tratamento de dependências comportamentais.

Linha do Tempo Profissional
PeríodoInstituiçãoAtuação
2005–2012Centro de Pesquisa em Saúde MentalPesquisadora associada
2012–2018INPADCoordenação de estudos epidemiológicos
2018–AtualUnidade de Dependências ComportamentaisPesquisa e atendimento clínico

Esses vínculos permitiram que eu atuasse simultaneamente em pesquisa, formação de profissionais e atendimento direto.

Comorbidades e saúde mental

Outra parte central do meu trabalho foi investigar comorbidades. O jogo problemático raramente aparece isolado. Frequentemente está associado a depressão, ansiedade ou uso de álcool.

Isso significa que o tratamento não pode focar apenas no comportamento de apostar. É preciso tratar o contexto emocional.

Metodologia e validação de instrumentos

Participei também da adaptação de instrumentos diagnósticos internacionais para o português brasileiro. Esse processo exige tradução, validação estatística e análise de equivalência cultural.

Sem instrumentos adequados, não há dados confiáveis.

Minha posição sobre regulamentação

Não sou contra o entretenimento. Mas acredito que expansão de mercado deve ser acompanhada de responsabilidade estrutural. Limites claros, campanhas educativas e monitoramento são fundamentais.

Quando a recompensa é constante e o acesso é ilimitado, alguns indivíduos estarão em maior risco. Ignorar isso é negligenciar evidência.

Reflexões finais

Minha trajetória é construída entre planilhas e consultórios. Entre artigos científicos e histórias pessoais. Entre números e sofrimento humano.

Continuo acreditando que compreender precede intervir. O Brasil precisa discutir gambling com maturidade, baseando-se em evidência científica.

Se minhas pesquisas ajudaram a iluminar esse debate, considero que cumpri meu papel. Ainda há muito a estudar. O ambiente digital muda rapidamente. O comportamento humano também.

Eu sigo pesquisando, atendendo e defendendo que saúde pública deve caminhar ao lado do crescimento econômico.

Porque o jogo pode ser entretenimento para muitos, mas para alguns ele se torna dor. E é para esses que a ciência precisa olhar com atenção.

Continuidade da Minha Trajetória e Desafios Atuais

Ao longo dos anos, percebi que estudar gambling no Brasil não significa apenas analisar números de prevalência. Significa acompanhar uma transformação social em tempo real. Quando comecei minhas pesquisas, o jogo ainda era majoritariamente presencial ou informal. Hoje, ele está integrado à cultura digital, às transmissões esportivas, às redes sociais e ao cotidiano financeiro de milhões de brasileiros.

Essa transformação me obrigou a atualizar constantemente minhas perguntas de pesquisa. Antes, eu investigava principalmente quem jogava e com que frequência. Agora, preciso perguntar: como a tecnologia altera o comportamento? O que acontece quando a aposta deixa de ser um evento isolado e se torna uma atividade contínua, integrada ao celular, disponível vinte e quatro horas por dia?

Na clínica, comecei a perceber mudanças importantes. Pacientes não falavam mais apenas de perdas financeiras. Falavam de dificuldade de concentração, de ansiedade constante, de sensação de urgência para apostar novamente. O estímulo digital cria ciclos mais rápidos de recompensa e frustração. Isso impacta diretamente os mecanismos neuropsicológicos de reforço.

Eu passei a observar também um fenômeno crescente: jovens adultos que nunca haviam frequentado um cassino físico, mas já apresentavam padrões de jogo problemático exclusivamente online. Isso alterou completamente o perfil de risco que eu havia estudado anos antes.

Tendências Observadas ao Longo do Tempo

Com base em diferentes estudos e análises clínicas, percebi mudanças progressivas na exposição ao jogo no Brasil. Abaixo está uma representação ilustrativa de como a participação estimada em diferentes modalidades evoluiu ao longo dos anos.

Evolução estimada da exposição ao gambling no Brasil

Esse gráfico ilustra uma tendência que venho observando: o crescimento expressivo das apostas esportivas online em comparação com modalidades tradicionais. A digitalização mudou o padrão de exposição populacional.

O Impacto Econômico e Psicológico

Outra dimensão que passei a investigar foi o impacto financeiro cumulativo. O gambling problemático não se manifesta apenas em grandes perdas súbitas. Muitas vezes, ocorre por meio de pequenas apostas repetidas, quase invisíveis no orçamento mensal, mas que se acumulam ao longo do tempo.

Psicologicamente, esse padrão cria uma ilusão de controle. O jogador acredita que pode recuperar perdas rapidamente. Esse ciclo de recuperação é um dos mecanismos centrais da manutenção do comportamento.

Na clínica, percebo que muitos pacientes relatam começar apostando por diversão, mas gradualmente passam a utilizar o jogo como estratégia de regulação emocional. Apostam para aliviar estresse, ansiedade ou frustração. Esse deslocamento de função — do lazer para o enfrentamento emocional — é um dos sinais mais claros de risco.

Educação, Prevenção e Responsabilidade Coletiva

Hoje, acredito que uma das maiores responsabilidades da minha atuação é contribuir para estratégias preventivas realistas. Não basta afirmar que as pessoas devem “jogar com responsabilidade”. Precisamos de campanhas educativas baseadas em evidência, limites estruturais claros e mecanismos de autoexclusão acessíveis.

Também defendo a inclusão de educação financeira e emocional nas escolas. Jovens expostos precocemente ao ambiente digital de apostas precisam desenvolver pensamento crítico e compreensão de probabilidades.

O Futuro da Pesquisa

O campo das dependências comportamentais está em constante evolução. Novas modalidades de jogo surgem rapidamente, incluindo apostas em e-sports e plataformas híbridas que combinam elementos de jogos eletrônicos e apostas monetárias.

Minha intenção é continuar investigando como esses ambientes digitais influenciam padrões cognitivos, impulsividade e tomada de decisão. Pretendo também ampliar estudos longitudinais, acompanhando participantes ao longo de anos para entender trajetórias completas.

Reflexão Final

Minha trajetória sempre foi guiada por uma convicção: fenômenos complexos exigem análise cuidadosa e responsabilidade coletiva. O gambling não é apenas uma escolha individual; é um comportamento inserido em contexto social, tecnológico e econômico.

Continuo acreditando que pesquisa e clínica devem caminhar juntas. Dados nos mostram tendências. Pessoas nos mostram consequências.

Se o Brasil deseja avançar de maneira equilibrada no mercado de apostas, precisará também avançar em políticas de prevenção e acesso ao cuidado. E eu seguirei contribuindo com aquilo que sempre guiou meu trabalho: método, evidência e compromisso com a saúde pública.

Perspectivas Éticas, Regulação e Novos Desafios Científicos

À medida que continuo acompanhando a expansão do mercado de apostas no Brasil, percebo que a discussão ética se torna cada vez mais central. Não se trata apenas de avaliar prevalências ou fatores de risco individuais. Trata-se de compreender como políticas públicas, estratégias de marketing e desenho de plataformas influenciam comportamento.

A arquitetura das plataformas digitais não é neutra. Elementos como notificações constantes, bônus de boas-vindas, apostas ao vivo e sistemas de recompensa variável são desenhados para manter o engajamento. Do ponto de vista psicológico, esses mecanismos dialogam diretamente com os circuitos de recompensa do cérebro.

Ao longo dos últimos anos, tenho defendido que a regulação deve considerar não apenas tributação e legalidade, mas também princípios de saúde pública. Isso inclui:

  • Limites obrigatórios de depósito.
  • Ferramentas claras de autoexclusão.
  • Transparência sobre probabilidades reais.
  • Monitoramento de padrões de risco.

Também acredito que pesquisas futuras precisam integrar métodos quantitativos e qualitativos. Estatísticas mostram tendências gerais, mas entrevistas em profundidade revelam significados subjetivos e motivações ocultas.

Outro ponto que tenho observado é a crescente normalização das apostas no discurso cotidiano. Quando o jogo passa a ser apresentado como extensão natural do consumo esportivo, o risco de banalização aumenta. A prevenção precisa acompanhar essa mudança cultural.

Abaixo, apresento uma síntese das principais frentes de atuação que marcaram minha trajetória profissional até aqui.

Área de AtuaçãoObjetivo PrincipalImpacto Observado
EpidemiologiaMapear prevalência e perfil sociodemográficoBase científica para políticas públicas
Progressão e riscoAnalisar tempo entre início e comportamento problemáticoIntervenções mais precoces
Diferenças de gêneroIdentificar padrões específicosProtocolos clínicos adaptados
Clínica e tratamentoAtendimento e reabilitaçãoIntegração entre pesquisa e prática

Essas frentes se complementam. Minha trajetória nunca foi linear; foi construída a partir de múltiplas camadas de investigação.

Hoje, sigo comprometida em ampliar o diálogo entre ciência, sociedade e regulação. Acredito que o Brasil está em um momento decisivo. As escolhas feitas agora terão repercussões por décadas.

Se há algo que aprendi em todos esses anos é que ignorar evidências tem custo alto. Por isso continuo pesquisando, ensinando e atendendo — porque compreender é o primeiro passo para cuidar.

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